quarta-feira, 8 de julho de 2009

História



Fundada em 5 de Julho de 1842 na Figueira da Foz, a Sociedade Filarmónica Figueirense tem incentivado a música, estando a sua filarmónica, com actividade ininterrupta ao longo destes anos, ligada a inaugurações importantes da cidade, como por exemplo ao ramal do caminho-de-ferro, Coliseu Figueirense, Casino da Figueira, Grande Hotel da Figueira, Ponte sobre o Mondego, Estátua do Centenário, entre outros.
Foram fundadores da colectividade: João José da Costa, José Lucas da Costa, Manuel da Silva Torres, Francisco Correia da Cruz e José Adelino Ferreira da Silva.
Foi primeiro regente da banda Abinadab Nunes da Silva.
A sua ligação à arte dos sons faz com que a colectividade guarde um dos mais importantes espólios musicais locais – o arquivo do maestro Herculano Rocha, patente na sua sala-museu.
Musicalmente a abrilhantar corridas de toiros desde o século XIX, esta filarmónica interpretou pasodobles toureros para os maiores nomes da tauromaquia e, por exemplo, Ricardo Chibanga e Joaquim Bastinhas já lhe dedicaram faenas.
É uma das colectividades musicais mais antigas do país. Esteve ligada às lutas progressistas, no século XIX. Aquando do seu centenário em 1942, era presidente da Câmara Rui Nogueira Ramos, o programa festivo desenvolveu-se também no Grande Casino Peninsular.
Em 1982, aquando do centenário da Figueira da Foz como cidade, interpretou – em directo para a RTP – o Hino Nacional, aquando da chegada do Presidente da República de então, o general Ramalho Eanes.
Participou também no espectáculo televisivo dos 100 anos do Casino Peninsular, tocando em conjunto com o Rancho das Cantarinhas de Buarcos a Marcha do Vapor.
A colectividade já teve sede na Rua do Pinhal, Rua Direita do Monte, Rua Fresca, Rua dos Ferreiros e, de há largos anos para cá, na Rua de Santo António(actual Dr. Santos Rocha), n..º 33.

Tradições

A tradição dos Autos Pastoris e Reis Magos servem igualmente de fundo à história da colectividade
No livro “Dia de Reis”, de António Jorge Lé e Ana Maria Lé, faz-se uma alusão ao desfile do cortejo da Espera de Reis.
“Noite fria. Ao longe alguns músicos já vão a caminho para o sítio donde saem os reis. Os archotes ainda estão apagados, a resina tresanda tudo quanto é lado. Está frio.
Os reis chegam de carro, já fantasiados: barbas brancas e mantos vistosos e iluminados pelas pérolas brilhantes que sobressaem como pregas do pano que as suporta.
Os clarinetes vão-se afinado com o sopro dos instrumentistas. Dá jeito por causa do frio.
O regente Zé Ferreira manda ir a marcha n.º 5, um “clássico” então da filarmónica. Dava para tudo – para ir para a tourada, para caminhar para a igreja, aquando das procissões. Enfim, para aquela noite também tinha ritmo.
O José Maria de Oliveira e o Rodrigues lá iam transportando a “malta”. Alguns dos músicos, como o Marques (do Bombardino), o Zé “das Botas” ou o Aníbal Pinto já não podiam sair da “Figueirense” a pé, a caminho da ponte, ou da Estação... já que por vezes era ali o ponto de partida.
Quando os clarinetes davam o si bemol a afinação estava quase concluída. Os reis subiam para as suas montadas. Ao preto dava jeito ser para o burro, fazia parte da tradição.
O Barata coordenava os últimos pormenores. Tudo estava a postos.
O horizonte é a sede na antiga rua de Santo António, mas antes o percurso ainda faz os reis passearem pelas ruas”.
Depois, no seu palco, anos e anos a fio, se representavam os Reis Magos. É dessa peça de autores desconhecido, que respigamos este excerto final:
Satanás Presta ouvidos ao que te digo,
Crê em mim e vem comigo
Que eu ditosa te farei.
Anjo Foge do inferno, ó Raquel,
Que tua alma quer roubar,
Crê com fé, no Deus eterno,
Que só glória tem para nos dar.
Satanás Só no mundo eu sou poderoso
Esse Deus é mentiroso
Não é mais que sombra vã.
Anjo Santo Deus Omnipotente
Iluminai a sua mente.
Já das trevas os véus se rasgaram!...
(Abre-se as cortinas do quadro final)
Raquel (ajoelha-se junto as trono)
Milagre!... Prodígio!... Só vós sois
O verdadeiro Deus!...
A minha alma já meia perdida nas
trevas do pecado; e só um bafejo
da vossa divina graça a podia salvar
das penas eternas.
(Raquel erguendo as mãos para o quadro)
Filho que repousas na cidade santa
Dos bem aventurados, pede a Deus
Por tua mãe que na Terra chora
A saudade do seu filho amado.
Anjo Vem... É o teu Anjo da guarda, Raquel,
Que te chama.
Os prazeres duram um momento.
A virtude é imortal, volve ao céu o
Pensamento. Vê-o e foge do Rei do
Mal.
(Raquel cai)
Satanás Maldição!...
Vencido, sempre vencido!... (Cai!)

Vulgarmente apelidado de Presépio, claramente um misto religioso e pagão, mostra quadros musicais, plenos de vivacidade e que elevam de forma ingénua o nascimento de Jesus.
Há um claro apelo à cultura popular portuguesa, bem vincada nas cenas que, outrora dispersas, se juntaram num auto com características muito peculiares e a tocar o ideal vicentino.
Alguns quadros cénicos remontam ao século XVIII; outros, como a Romagem do Diabo, apareceram no século XIX.
Antigamente o Presépio foi representado em vários teatros do concelho figueirense. Com textos bem elaborados, os Autos Pastoris da Figueira mereceram sempre várias referências de conceituados autores locais. Maurício Pinto, Armando Coimbra, Augusto Pinto, entre outros, teceram elogios a esta forma de expressão natalícia.
O escritor Luís Cajão, num artigo publicado no semanário O Figueirense, descreve assim esta tradição:
«Tive, ainda imberbe, o gosto de assistir a uma representação num vago teatrinho dos começos da Rua Dr. Santos Rocha.
Uma pergunta desde logo nos ocorre: Quem terá sido o autor desses autos? Algum frade poeta e músico do vetusto convento de Santo António? A dúvida persiste. Trata-se, para uns, de uma forma dramática de raiz erudita; para outros, de mera adaptação popular dos autos hieráticos da Idade Média.
Saborosos nomes arcádicos – Almeno, Frondoso, Albino e Alceu – baptizam os quatro chamados pastores brutos. E também por lá andam, com configuração humana, o Sol, a Noite e a Lua, além, é evidente, do “terrífico” Satanás, que de vivo surge de rompante e de vivo escarlate, numa agitada explosão de enxofre, capa negra pelo tornozelo, chifres aguçados e ameaçadores. A sua aparição é porventura o passo mais fulminante do espectáculo, lance de mágica sempre muito apreciado.
Teatro ingénuo e tocante, por vezes pícaro e outras até mesmo irreverente, só muitos anos depois de haver assistido a um auto é que eu viria a saber do estratagema, habitual e infalível, de Raquel ao fazer, toda de nojo, chorar o filho que traz com ela. No momento em que, de joelhos aos pés de Herodes, implora, desvairada, ao Tetrarca que não lhe mande degolar o menino, é fatal alastrar por toda a sala uma pesada tensão, um apavorado silencio. Silêncio que Raquel, expedita, aproveita para espetar, discreta, um alfinete nas nádegas da criança. É então que berra, esbraceja, se revolve no mais con­vulsivo dos choros, o pobre infante condenado à morte pelo furibundo Herodes. Momento, na realidade, ferozmente melodramático.
Pois apesar de todas estas comiserativas tragédias, não raras eram as famílias que levavam merendas opíparas e garrafões de vinho para irem comendo e bebendo durante a representação, que, em regra, se alongava noite fora (...).
Como cenógrafo e figura típica, carismática, da Figueira de há meio século seria pura injúria esquecer Rogério Reynaud. Suspenso da sua ampla cabeleira, sempre de pasta e repolhudo plastron, lá vem ele, elástico e sorridente, ao nosso encontro pelo Cais. Acaba de sair dos escritórios dos Caminhos de Ferro da Beira Alta (não traz com ele, como é habitual, o seu ajudante “Padre-Nosso”), e vai com certeza para casa, na Rua dos Ciprestes, ao pé da igreja, onde o espera sua mulher, a senhora D. Capitolina, que preparava, mãos abençoadas aquelas, o melhor cup da cidade».
____________________________________
Durante anos, a par com a serração-da-velha, esta agremiação local preservou estes velhos costumes da Figueira. Para a história ficam também as Festas à Portuguesa ou as Festas dos Corações.















segunda-feira, 6 de julho de 2009











A Sociedade Filarmónica Figueirense, para além de várias actuações em concertos, procissões religiosas, actos oficiais e touradas, possui ainda uma escola de música, sob a direcção pedagógica de Carlos Cardanho, que assim sucedeu a José Maria Ferreira.
Preside actualmente à Direcção António João Oliveira.
Personalidades locais diversas estiveram ligadas à Sociedade Filarmónica Figueirense como dirigentes, amigos ou participantes activos nas suas actividades, uns já falecidos, outros felizmente ainda não. Eis alguns nomes ao acaso:
– Frederico de Freitas Lopes, Mário Barraca, Jerónimo Pais, António Augusto Esteves (Carlos Sombrio), Luciano Ribeiro Coelho, Manuel Ferreira Cavaco, Antonino Rodrigues (mi-ré-ré), José Maria Ferreira, António Campos, António Rocha Carriço, António Carvalho Rodrigues, António Lopes Rocha, Filomena Bugalho, Aires Pinto, António Sangalho, António Barata, Júlio Sário, José Maria Mendes Curado (que foi um dos trombonistas mais antigos do país em actividade), Jaime Pereira, José Maria Teles, Jerónimo Pinto da Silva, João Mendes da Costa, José Teixeira Mourão, Fernando Mingachos, José Bugalho, António Mingachos, Luiz Maia, “Galheta”, Manuel Lopes Conde, Carlos Conde, Maria Aires Pinto, José Maria de Oliveira, Henrique Braz Rocha, António dos Vultos, António Ferreira, António Soto Maior, Francisco Marques Bom Augusto César, José Maria Matos, Armando Coimbra, António Mendes da Costa, Manuel Gonçalves, José Augusto Lourenço, Joaquim Barros e Sousa, Rui Trafaria, Carlos Beja, Carmen Duarte, Augusto Esteves Maissas, Amélia Mendes Curado, António dos Santos Monteiro, Lucília dos Santos Domingues, Olinda Nobre, Armando Rodrigues, José Augusto Ferreira (Traveira), José Gonçalves, mestre José Marques Figueira, Augusto Palas, Nazaré Nascimento, Víctor Nascimento, Maria Celeste Rodrigues, Graça Conde, José Vasco Lopes, Manuel Nascimento Pinto (Balé), Rogério Reynaud, João Melo Gonçalves (João Padre Nosso), João Alberto Maia, Vítor Murta, João Murta, Deolinda Santos, José Carlos Santos, Antonino Rodrigues, Ivone Cavaco, Fernanda Antunes, Vítor Falcão Pais, Carlos Cardanho, Joaquim de Jesus, José Alberto, Freitas, Licínio Azedo, Agapito Tavares Pessoa, Eugénio Ferreira, entre muitos outros.